Textos Críticos

"HIATO"
 
 

 

Augusto Fonseca

 

 

“A peste, é preciso que se diga, tirara a todos o poder do amor, e até o da amizade. Porque o amor exige um pouco de futuro e, para nós, já não havia senão instantes.”

Albert Camus (A Peste)

 

Em “A peste”, Albert Camus narra a história fictícia de uma epidemia que assola a cidade de Orã, que sofre com o adoecimento e morte de seus habitantes em meio a alienação, desorganização e cegueira das autoridades. A sensação de indignação, desilusão, impotência e desesperança presente no livro nos remete, de forma similar, a sentimentos e acontecimentos vividos recentemente no mundo. Durante o período de isolamento social, houve um momento de maior introspecção, e as pessoas foram obrigadas a lidar de forma próxima e íntima com questões pessoais. Foi nesse contexto de reorganização e adequação que Marco Tulio Resende revisitou, em meio aos seus guardados, um material recolhido de descarte gráfico, material este utilizado para criar a mais recente série de trabalhos presente na exposição “HIATO”

O ato de coletar e colecionar é uma prática habitual do artista, que guardou, por anos, centenas de folhas impressas contendo a imagem do rosto de uma criança com feição de choro, tristeza e medo. Seu interesse no resgate e uso desse material parece surgir do reflexo e reação ao momento pandêmico, social e político que vivenciamos. Com isso, realizou uma série de intervenções nesse suporte, sobrepondo a imagem com pinceladas, riscos e interferências diversas, algumas vezes cobrindo totalmente a figura da criança, em outras, deixando escapar pequenas pistas do que outrora existira ali. As reproduções fotográficas, anteriormente comum a todas as impressões, foram adquirindo novas personalidades trazidas pelo traço irregular de sua ação, criando silhuetas com novos elementos visuais e padrões cromáticos, aproximando essas figuras disformes às representações de cabeças e corpos já realizados em trabalhos anteriores.

Há de perceber a força gráfica estabelecida pelo artista, na qual, disposto a procurar uma saída para a fragilidade que a base do suporte e do momento ofereceram, realizou um inventário de novas possibilidades. Portanto, Marco Tulio incide na imagem impressa a sua identidade, inscreve por meio de seu traço, ocupa o espaço e preenche a lacuna que nos foi imposta neste momento de dificuldades, readaptando-se, lançando mão do desenho e do gesto diário, característicos de seu processo de criação.

 

Augusto Fonseca

 

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